Espumantes pelo mundo: Diferentes estilos e classificações

O delicioso mundo das borbulhas é bastante complexo, pois envolve diversos estilos, níveis de doçura, sabores, métodos de produção e nomenclaturas. Basicamente espumantes são “vinhos que contém boa quantidade de gás carbônico dissolvido, responsável pelas bolhas que se apresentam quando são servidos”. Eles podem ser brancos, rosés e tintos, e os diferentes métodos de obtenção de bolhas incluem: método tradicional ou clássico (champenoise), transvaso, método ancestral, método de transferência, processo Charmat (método de tanque), método Asti e carbonatação, entre outros.

Não vamos entrar em detalhes técnicos sobre como cada método é feito, embora o conhecimento sobre cada um deles seja essencial para quem queira compreender melhor os espumantes. Mas os dois principais são o método tradicional e o Charmat. O rei dos espumantes, o Champagne, por exemplo, é feito pelo método tradicional. Aquele espumante econômico que você encontra no supermercado, que não evolui com envelhecimento e deve ser consumido jovem, geralmente é elaborado pelo método Charmat. É importante ressaltar que, por possuir características organolépticas diferentes, cada um tem suas qualidades e podem gerar níveis semelhantes de prazer, dependendo da ocasião.

Nosso foco hoje será em traçar um breve panorama dos principais espumantes e regiões produtoras, deixando de fora o Champagne, pelo fato de já termos publicado uma longa postagem sobre o mesmo aqui no site.

França

A França é um prato cheio para quem gosta de espumantes, com enorme variedade de tipos e estilos.

Crémant é a palavra que designa um espumante francês feito fora da região de Champagne pelo método tradicional. Existe em várias regiões da França, sendo os mais famosos: Crémant de Bourgogne, Crémant d’Alsace e Crémant de Loire.
– Os espumantes elaborados pelo método Charmat são denominados Vin Mousseaux.
– Depois de Champagne, o segundo maior centro de produção de espumantes na França é o Vale do Loire, com destaque para as denominações de Saumur e Vouvray.
– Há também os espumantes realizados pelo método ancestral, em Gaillac, Limoux e Bugey.
– Limoux, no Languedoc, também produz dois espumantes pelo método tradicional, que são o Blanquette de Limoux, com as uvas Mauzac (mínimo de 90%), Chardonnay e Chenin Blanc, e o Crémant de Limoux, com as uvas Chardonnay (mínimo de 50%), Chenin Blanc, Pinot Noir e Mauzac. Uma curiosidade é a teoria de que foi em Limoux que surgiu o primeiro espumante do mundo!
Ayze é um espumante produzido a partir de uma variedade única da região de Haute-Savoie, chamada Gringet.
Clairette de Die é um espumante natural, feito por um método ancestral intitulado Dioise, no Vale do Rhône. É produzido a partir da Muscat Blanc à Petits Grains (mínimo de 75%) e Clairette (mínimo de 25%). Há também Clairette de Die produzido pelo método tradicional, 100% Clairette. A região do Rhône também elabora o Crémant de Die, via método tradicional, com as uvas Clairette, Aligoté e Moscato.
– Outro termo utilizado na França é Pétillant, que se refere a um vinho ligeiramente espumante, cuja pressão de gás carbônico é menor do que em outros espumantes. Embora de origem anterior ao método tradicional, foi a partir dos anos 90 que surgiu o Pétillant Naturel, ou simplesmente Pét-Nat, no Vale do Loire, procurando resgatar o método ancestral e elaborando vinhos com pouca interferência ou manipulação (que atualmente faz muito sucesso entre os amantes dos chamados ‘vinhos naturebas’).

Espanha

Cava é o termo usado desde 1970 para denominar os espumantes espanhóis (lá conhecidos como espumosos) feitos pelo método tradicional. A grande maioria (95%) é elaborada na região de Penedès, na Catalunha; entretanto, esse estilo de vinho também pode ser feito nas regiões de Aragon, Valencia, Navarra, Rioja e País Basco. Frequentemente, o corte utilizado é das uvas Macabeo, Parellada e Xarel-lo para brancos, e Garnacha e Monastrell para os rosés; mas a Chardonnay, e a Pinot Noir também são autorizadas, o que causa certa controvérsia por afetar o ponto de diferenciação da bebida.
– Outros espumantes espanhóis incluem o Xamprada, produzido na região do Bierzo, e o Rueda, elaborado em Castilla y Léon.

Itália

– A DOCG Asti produz espumantes doces no Piemonte, com nível baixo de álcool (aproximadamente alc. 7% vol.), a partir da casta Muscat Blanc à Petits Grains (uva da família Moscato).
Lambrusco: Frisante ou espumante produzido pelo método Martinotti (Charmat) na região de Emilia-Romagna e Lombardia a partir da variedade de uva Lambrusco (que, na realidade, é o nome de mais de dez castas nativas, sendo as mais plantadas a Lambrusco Salamino e a Lambrusco Grasparossa).
– O Prosecco é elaborado no nordeste da Itália, com a uva Glera (que antigamente também se chamava Prosecco). São três os níveis de qualidade, sendo: Prosecco (o tipo mais comum), Prosecco Superiore (que apresenta um nível maior de qualidade), e por fim os Proseccos oriundos de duas excepcionais sub-regiões, Conegliano Valdobbiadene e Colli Asolani, que podem produzir exemplares “millesimato” (safrados). O Prosecco é tipicamente produzido pelo método de tanque.
– Franciacorta, na Lombardia, e Trento, em Trentino, disputam o posto de melhores regiões produtoras de espumantes pelo método tradicional ao estilo Champagne na Itália.

Uma curiosidade final sobre a Itália é que lá os espumantes são popularmente conhecidos como Bollicine.

Portugal

– Em Portugal não existem denominações como Champagne, Cava ou Crémant. Mas as regiões de Bairrada e Lamego já produzem espumantes desde 1880. Ambos os locais continuam entre os principais produtores, especialmente a Bairrada, mas atualmente Távora-Varosa e Palmela também se destacam. As uvas utilizadas tanto podem ser autóctones, como Maria Gomes, Bical, Malvasia Fina e Castelão, como internacionais, como Chardonnay e Pinot Noir, e o principal método utilizado é o tradicional.

Alemanha

– Produz, pelo método Charmat, o conhecido espumante Sekt, que se utiliza basicamente das uvas Riesling e Müller-Thurgau, que podem ser procedentes de outros países. No caso do vinho ser rotulado como Deutscher Sekt, indica que as uvas utilizadas foram cultivadas na Alemanha, sendo os melhores feitos a partir da Riesling. Algumas vinícolas produzem Sekts pelo método tradicional, com qualidade superior, porém são raros. A taxa de consumo per capita do Sekt no país é uma das maiores do mundo.

Hungria

– Os espumantes elaborados pelo método tradicional recebem o nome de Pezsgö. A região de Budafok é a mais conceituada, e pioneira no país na produção desse tipo de vinho.

Inglaterra

– Apenas há três décadas que os ingleses começaram a cultivar Chardonnay, Pinot Noir e Pinot Meunier no sul do país. Mas seus espumantes já começam a se destacar no mundo dos vinhos, chamando atenção até mesmo dos franceses. Só para citar um exemplo, a casa de Champagne Pommery firmou parceria com a vinícola inglesa Hattingley, da cidade de Hamspshire, para produzir espumantes ingleses e também desenvolver seus próprios vinhedos nas terras da rainha.

África do Sul

– Na África do Sul os vinhos elaborados pelo método tradicional são rotulados como Méthode Cap Classique. As uvas de Champagne são as mais utilizadas. O país tem também um grande mercado interno de espumantes carbonatados, com graus de doçura que vão de quase secos a doces.

Austrália

– Produz uma ampla variedade de estilos. Os melhores vinhos são feitos pelo método tradicional em regiões frescas e moderadas, como Yarra Valley, Adelaide Hills e Tasmânia, geralmente a partir de Chardonnay e Pinot Noir. Já os espumantes econômicos produzidos pelo método de tanque são normalmente oriundos de regiões moderadamente quentes, como Riverina. A Austrália também produz espumantes tintos de Shiraz, Cabernet Sauvignon e Merlot, sendo os de melhor qualidade produzidos pelo método de transferência ou pelo método tradicional, e os mais econômicos por carbonatação ou Charmat.

Nova Zelândia

– Com exceção de Auckland, espumantes são produzidos em todas as regiões vitivinícolas do país, principalmente em Marlborough. O método mais utilizado é o tradicional, com as castas clássicas de Champagne. Mas a Nova Zelândia também produz espumante de Sauvignon Blanc, geralmente por carbonatação ou Charmat, para reter os intensos aromas e sabores da uva.

EUA

– Os melhores ‘sparkling wines’ dos EUA vem de lugares mais frescos na Califórnia, como Los Carneros e Anderson Valley. Os vinhos de qualidade superior são elaborados pelo método tradicional, geralmente a partir de Pinot Noir e Chardonnay. Grandes volumes de espumantes econômicos também são produzidos, pelo método Charmat ou carbonatação, a partir de castas cultivadas em regiões mais quentes.

Brasil

– A Serra Gaúcha produz ótimos espumantes pelo método tradicional, geralmente a base de Chardonnay, Pinot Noir e Riesling Itálica. Há quem diga que os espumantes são os melhores produtos de nossa indústria vinícola, opinião esta que Cervejas e Vinhos coaduna.

Bibliografia:
– Compreendendo o Vinho: Explicando o Estilo e a Qualidade – Livro de apoio da Qualificação de Nível 3 em vinhos WSET (Wine & Spirit Education Trust)
– Conheça Vinhos – Dirceu Vianna Junior & José Ivan Santos – Ed. SENAC
– Le Dictionnaire des Vins de France A.O.C. – Ed. Hachette
– Os Vinhos e Vinhas de Portugal – Richard Mayson – Ed. Europa-América
– Wine Folly – O Guia Essencial do Vinho – Madeline Puckette & Justin Hammack – Ed. Intrínseca

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