Dossiê Champagne: Castas, tipos e produtores

O Champagne é o vinho espumante mais conhecido do mundo, tanto que a maioria dos espumantes de qualidade superior são produzidos da mesma forma, e com as mesmas uvas.

Na região de Champagne existe apenas uma única denominação de origem: Champagne AC (Appellation Contrôlée). Alguns villages da região tem a condição de cru; 44 são premier cru e 17 são grand cru.

Dentro dos limites da denominação existem 5 sub-regiões onde se encontram a grande parte das vinhas. As três sub-regiões mais famosas são a Montagne de Reims, a Vallée de la Marne e a Côte des Blancs. As outras duas são Côte de Sézanne e Côte des Bar.

Clima e Viticultura

Champagne tem um clima continental fresco, com influências oceânicas. A viticultura é um desafio, enfrentando frio extremo no inverno e geadas de primavera, além de tempo chuvoso e nublado constantemente. Mesmo nos anos mais quentes, os níveis de açúcar das uvas permanecem muito baixos e os níveis de acidez muito altos, fazendo que com que esta região seja ideal para a produção de espumantes.

As geadas representam um dos maiores desafios na vinha. Para minimizar esta ameaça, a maioria das vinhas estão plantadas em encostas. Os solos de Champagne estão dominados pelo giz, o qual proporciona uma boa drenagem depois de chuvas intensas, mas também retém uma quantidade suficiente de água nos períodos secos. Os subsolos são calcários, ajudando a irradiar os fracos raios solares.

Variedades de uva

As três principais castas utilizadas na elaboração do Champagne são a Chardonnay, a Pinot Noir e a Meunier (ou Pinot Meunier). A Chardonnay está mais amplamente plantada na Côte de Blancs e na Côte de Sézanne. Resulta em vinhos de pouco corpo, acidez alta e um caráter floral e de fruta cítrica. A Pinot Noir domina a Montagne de Reims e a Côte des Bar. Esta casta produz vinhos com muito mais corpo e fornece a espinha dorsal à maioria dos cortes. Também pode proporcionar um caráter de fruta vermelha. A Meunier predomina na Vallée de la Marne e dá sabores frutados ao corte e é especialmente importante para os vinhos que se elaboram para serem consumidos enquanto jovens.

Há também quatro variedades esquecidas: Arbane, Petit Meslier, Blanc Vrai (Pinot Blanc) e Fromenteau (Pinot Gris). Elas são autorizadas pelo Comitê de Champagne, porém muito pouco usadas, ocupando apenas 0,3% das plantações. Laherte Frères Les 7 Extra Brut é um exemplo de Champagne que reúne as sete castas da região.

Vinificação

O Champagne é feito usando o método tradicional. As uvas devem ser vindimadas à mão para permitir a seleção na vinha e conservar os cachos inteiros e intactos. O processo de prensagem também é controlado. O primeiro líquido que se obtém da prensagem, e que contém o suco mais puro, recebe o nome de cuvée. O líquido restante chama-se taille. Os melhores Champagnes serão feitos utilizando unicamente a cuvée.

A primeira fermentação poderá ser realizada em cubas de aço inox, em barris de madeira de carvalho ou em uma combinação dos dois. A FML (fermentação malolática) poderá ser estimulada ou bloqueada e os vinhos base poderão ser envelhecidos em madeira de carvalho por um curto período ou simplesmente armazenados em recipientes inertes até serem usados.

As condições do tempo em Champagne podem variar significativamente de ano para ano e, portanto, a elaboração do corte desempenha um papel extremamente importante. Os vinhos poderão ser fermentados em pequenos lotes para oferecer um maior número de opções na altura de elaborar o corte. Os grandes produtores de Champagne utilizarão dezenas de vinhos para elaborar os seus cortes a fim de conseguir alcançar o estilo próprio da casa, ano após ano.

O período de tempo que o vinho é envelhecido, incluindo o tempo que passa em contato com as borras (“sur lie”), depende do estilo de vinho a ser produzido. Os vinhos non-vintage (sem indicação de safra / ano de colheita) devem ser envelhecidos durante um mínimo de 15 meses, 12 dos quais, como mínimo, devem ser em contato com as borras. Os vinhos vintage (com indicação de safra / ano de colheita) devem ser envelhecidos durante um mínimo de 36 meses (não existem requisitos extra para o envelhecimento em contato com as borras). Contudo, na prática, os produtores geralmente envelhecem os seus vinhos por muito mais tempo.

Existem Champagnes de diferentes estilos e níveis de qualidade, mas o que se espera de todos é acidez alta e algum sabor autolítico. Os vinhos non-vintage geralmente possuem menos corpo e mais sabores de fruta fresca do que os vinhos vintage. Os melhores exemplares apresentam alguma complexidade dada pelo uso de vinhos de reserva. Os vinhos vintage são feitos nos melhores anos. São geralmente mais concentrados do que os vinhos non-vintage e exibem mais notas tostadas e do tipo biscoito dadas por um envelhecimento em contato com as borras mais longo.

O Champagne rosé pode ser tanto non-vintage como vintage. Os melhores vinhos exibem um delicado equilíbrio entre aromas provenientes de autólise e notas frutadas subtis do tipo bagas vermelhas. Os vinhos Blanc de Blancs tem tipicamente corpo ligeiro a médio e fruta primária do tipo cítrica, enquanto os estilos Blanc de Noirs tendem a ter mais corpo e tem mais sabores de fruta vermelha.

Muitas casas de Champagne produzem um Prestige Cuvée, o qual constitui o melhor vinho de toda a gama dessa casa. São muitas vezes, mas não sempre, vinhos vintage e são elaborados a partir dos melhores lotes de uvas. Podem permanecer até dez anos nas caves antes da comercialização, apesar de não haver exigências de duração. Muitos destes vinhos podem se mostrar fechados na sua juventude e, portanto, pode ser compensador mantê-los vários anos na garrafeira ou adega antes de os beber. Estes vinhos são os que atingem os preços mais altos.

Os Champagnes podem ter diferentes níveis de doçura, mas o Brut é de longe o estilo mais popular. A tendência dos Brut Nature tem crescido, embora ainda representem uma fatia muito pequena do mercado.

Os tipos de Champagne

Assemblage – Vinho básico que procura anualmente reproduzir o estilo de cada maison. Emprega uma mescla de diferentes cepas, de diversos vinhedos (crus) e de vários anos (vinhos de resérve).

Millesimé – Safrado, só disponível nos grandes anos.

Blanc de Blancs – 100% Chardonnay, sendo o mais leve de todos.

Blanc de Noirs – 100% de uvas tintas, sendo raros.

Rosé – Pode ser elaborado com uma mistura de vinhos brancos e tintos, e normalmente é também Millesimé.

Premier Cru – Elaborado apenas com uvas de 44 comunas com pontuação entre 90% e 100%. A escala se inicia em 80%

Grand Cru – Gerado apenas em 17 comunas com 100% de pontuação, tais como Verzenay, Verzy, Bouzy, Ambonnay, Cramant, Avize, Le Mesnil-sur-Oger, etc.

Cuvée de Prestige (ou Cuvée Spéciale) – São assim chamados os vinhos da mais alta importância de cada casa, como, por exemplo, o Dom Pérignon, da Moët & Chandon. São geralmente safrados.

E mais:
Dégorgement Tardif (“degola tardia”) ou R.D. (Recently Disgorged) – Champagnes vintage “recém-degolados” que desenvolvem características próprias, geralmente complexos por terem sido deixados em “sur lie” muitos anos além do usual. Exemplo: Bollinger RD.
Mis em Cave (“data de engarrafamento”) – Champagne não safrada que traz em seu rótulo a data em que o vinho foi engarrafado. Como o vinho base é sempre engarrafado na primavera após a vindima anterior, a data que aparece no rótulo indica a safra do ano anterior. Exemplo: Charles Heidsieck Brut Réserve Mis em Cave.

Teor de açúcar:
– Brut Nature ou Dosage Zéro: até 3 gramas por litro
– Extra-Brut: máximo de 6 g/l
– Brut (o líder de mercado): no máximo 15 g/l
– Extra-sec: 12-17 g/l, antes o limite superior era 20 g/l
– Sec ou Dry: 17-32 g/l, antes 35 g/l
– Demi-sec ou Rich (meio-seco): 33-50 g/l
– Doux: mínimo de 50 g/l

Os vinhos tranquilos de Champagne

Tintos, brancos e rosés não-espumantes também são produzidos, sob os rótulos de Bouzy Rouge, Rosé des Ricey e Couteaux Champenois. Dois pontos eles têm em comum: preços altos, e qualidade superior apenas nas safras mais quentes. Praticamente impossível encontrar um desses à venda no Brasil.

Principais produtores de Champage

Todos os tipos de Champagne podem ser produzidos por maisons, cooperativas e vignerons. Vamos a lista dos principais, além de dicas de alguns dos cuvées mais famosos:

Agrapart (Cuvée des Demoiselles)
Ayala (Cuvée Perle d’Ayala)
Barnaut (Cuvée Edmond)
Beaumont des Crayères
Billecart-Salmon
– Henri Billiot (Cuvée Laetitia)
Bollinger (o Champagne de James Bond)
– Raymond Boulard
Canard-Duchêne (Cuvée Charles VII)
Cattier (Cuvées Clos du Moulin e Armand de Brignac Ace of Spades)
– René Collard
– Raoul Collet (Cuvée Esprit Couture)
– André Clouet
– Comte Audoin de Dampierre (Cuvée des Ambassadeurs)
De Meric (Cuvée Catherine)
De Souza (Cuvée des Caudalies)
Delamotte
Deutz (Cuvée William Deutz)
Diebolt-Vallois
Drappier (Cuvées Charles de Gaulle e Grande Sendrée)
Egly-Ouriet
– Nicolas Feuillatte (Cuvée Palmes d’Or)
– Pierre Gimonnet
– Henri Giraud
Gosset (possivelmente a mais antiga das casas de Champagne) (Cuvée Célébris)
– Alfred Gratien (Cuvée Paradis)
– Charles Heidsieck
Heidsieck Monopole
Henriot (Cuvée des Enchanteleurs)
Jacquesson
Krug (“o Rolls-Royce dos Champagnes”)
Lanson (Noble Cuvée e Clos Lanson)
Larmandier-Bernier (Cuvée Cramant de Vieilles Vignes)
Laurent-Perrier (Grand Siècle ‘La Cuvée’)
Leclerc Briant
Lilbert-Fils
– Serge Mathieu
Mercier (Cuvée de Fondateur Eugène Mercier)
Moët & Chandon (Cuvée Dom Pérignon)
Moutard (Cuvées Arbane Vieille Vigne, Prestige, L’An 2000 e 6 Cépages, entre outros)
Mumm (Cuvée R. Lalou)
Joseph Perrier (Cuvées Royale e Joséphine)
Perrier-Jouët (Cuvée Belle Époque)
– Pierre Peters
Philipponnat (Cuvée Clos des Goisses)
Piper-Heidsieck (Cuvées Rare e Jean-Paul Gaultier)
Pol Roger (Cuvée Sir Winston Churchill)
Pommery (Cuvée Louise)
– Roger Pouillon
– Jérôme Prévost (La Closerie Cuvée Les Béguines, um raro cuvée 100% Meunier)
– Alain Robert (Le Mesnil Tête de Cuvée)
– Louis Roederer (Cuvée Cristal)
Ruinart (Cuvée Dom Ruinart)
Salon (só trabalha com cuvées vintages)
– Jacques Selosse (Cuvée Substance)
Taittinger (Cuvée Comtes de Champagne)
Tarlant (Cuvée Louis)
Veuve Clicquot-Ponsardin (Cuvée La Grande Dame)
Veuve Fourny (Cuvées R. e Clos Fauborg Notre Dame)
Vilmart (Cœur de Cuvée)
Vollereaux (Cuvée Margherite)

Outros produtores: Abelé, Adam-Garnotel, Arlaux, Arnould, Auche, Bara, Bardoux, Baron Albert, Beaufort, Besserat de Bellefon, Binet, Blin, Blondel, Boizel, Bonnaire, Bonnet, Boursault, Brice, Bricout, Brugnon, Brulez, Brun, Le Brun de Neuville, Cadel, Cazals, Castellane, Chanoine, Charbaut, Charles de Cazanove, Chartogne-Taillet, Clouet, Delbeck, Delouvin Nowack, Demoiselle, Déthune, Devaux, Doquet-Jeanmaire, Dumangin, Dumont, Duval-Leroy, Ellner, Fleury, Fluteau, Forget-Brimont, Forget-Chemin, Le Gallais, Gallimard, Gardet, Gatinois, Geoffroy, Gobillard, Goerg, Gonet, Goulet, Goutorbe, Hamm, Harlin, Henriet-Bazin, Hostomme, Jacquart, Jacquinot, Jamain, Jeanmaire, Laherte Frères, Lemaire, Lenoble, Loriot, Mailly, Mandois, Margaine, Marne et Champagne (produtora do Gauthier), Marniquet, Martel, Massin, Mesnil, Michel, Mignon & Pierrel, Milan, Moncuit, Moutardier, Napoléon, Oudinot, Paillard, Palmer, Pannier, Payelle, Pierrel, Pouillon, Robert (Bertrand Robert), Royer, Telmont, Thienot, Tribaut, Union Champagne, Velut, Venoge, Vesselle (Georges Vesselle), Vesselle (Maurice Vesselle), Vranken-Pommery e Walsham.

Bibliografia:
– 1001 Vinhos Para Beber Antes de Morrer – Neil Beckett – Ed. Sextante
– Christie’s World Encyclopedia of Champagne & Sparkling Wine – Tom Stevenson & Essi Avellan – Sterling Publishing
– Compreendendo o Vinho: Explicando o Estilo e a Qualidade – Livro de apoio da Qualificação de Nível 3 em vinhos WSET (Wine & Spirit Education Trust)
– Os Segredos do Vinho – Para Iniciantes e Iniciados – José Osvaldo Albano do Amarante – Mescla Editorial
– Vinhos Franceses – Guia Ilustrado Zahar – Robert Joseph – Ed. Zahar
– World Encyclopedia of Champagne & Sparkling Wine – Tom Stevenson – Wine Apreciation Guild

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