Cervejas e Vinhos visita o Vale dos Vinhedos, parte 3 de 3

Enfim chegamos a terceira e última parte de nossa saga pelo Vale dos Vinhedos, na Serra Gaúcha. Recomendamos a leitura prévia das partes 1 (link) e 2 (link).

No último dia não havíamos agendado nada e já tínhamos um compromisso a tarde, um churrasco regado a vinhos, organizado pelo cozinheiro Ronaldo Nouals. Então aproveitamos a manhã para visitar duas vinícolas, a Alma Única e a Peculiare.

Devido às restrições causadas pela pandemia do COVID-19, a Alma Única não estava permitindo que vinhos fossem abertos em suas dependências. Exceto para quem tivesse horário marcado para participar de uma degustação conduzida em local apropriado. Por conta disso nossa passagem pela vinícola foi rápida e apenas compramos algumas garrafas, que foram degustadas durante o churrasco e que comentaremos posteriormente. A vinícola em si é bonita e imponente, e seus vinhos de castas francesas famosas, são bem feitos.

Em seguida visitamos a Peculiare Vinhos Únicos. Mesmo sem horário agendado, a co-proprietária e esposa do enólogo nos recebeu e pudemos participar de uma ‘degustação premium’ com seis rótulos. Provamos, pela ordem: Antonela Chardonnay 2018, com 12 meses de barrica francesa, bem integrada a fruta; Cabernet Sauvignon Rosé 2020, que também conta com 10% de Pinot Noir em seu corte, sem passagem por madeira, bem fresco; Assemblage, tinto de entrada da vinícola, não-safrado, corte de Ancellotta, Cabernet Sauvignon e Merlot, sem madeira; Merlot 2014, com 18 meses de barrica de 1º uso, bem integrado a fruta e com boa acidez; Ancelota Gran Reserva 2013, com 1 ano de barrica e potencial de guarda; e por fim Licoroso 10 Anos, feito com Malvasia de Cândia. Apreciamos todos os vinhos, com destaques para o Merlot 2014 e o Licoroso 10 Anos. Ficou nítido para nós que a Peculiare produz vinhos de personalidade própria, bem estruturados, onde a madeira nunca rouba a cena. Ao lado da Estrelas do Brasil e da Pizzato, a Peculiare foi a vinícola que mais gostamos, das oito que visitamos no Vale dos Vinhedos.

Em relação ao Ancelota Gran Reserva 2013, gostaríamos de debater alguns pontos. Normalmente a grafia mais utilizada é Ancellotta. E após uma má experiência com o Don Laurindo Reserva Ancellotta 2019, relatado na parte 1 desta matéria, estávamos curiosos para provar o exemplar da Peculiare. Em uma conversa com um enólogo de uma outra vinícola, que preferimos não citar o nome, nos foi relatado que, na Serra Gaúcha, a Ancellotta é mais utilizada para dar cor, e que seus vinhos geralmente não são varietais, mesmo que o rótulo traga apenas o seu nome. Então ao nos depararmos com o bom vinho da Peculiare, levantamos esse questionamento, e a resposta que nos foi dada é que “é preciso saber fazer Ancellotta e dar tempo a garrafa”. Inclusive saímos de lá com um exemplar de 2008 em mãos, que não abrimos ainda. A priori, a Ancellotta da Peculiare parece ser das mais confiáveis, quiçá a melhor, do Vale dos Vinhedos.

De volta a hospedagem, e dando início ao churrasco, enfileiramos oito garrafas adquiridas nos últimos três dias. Abrimos os serviços com dois espumantes, o Peculiare Natural Brut (bom) e o Pizzato Brut Rosé (muito bom). Na sequência o vinho mais bizarro de toda a viagem, o Dall’Agnol Edição Especial Fumé Blanc 2016, um Sauvignon Blanc feito ao estilo californiano, com passagem de 6 meses em carvalho americano. As frutas tropicais se mesclavam a fortes notas de coco e baunilha, num misto de adocicado com amargor herbal. Foi o único vinho da Estrelas do Brasil que não aprovamos, sendo pesado e indigesto.

Com a carne sendo servida, foi a hora de provar os tintos. O primeiro foi o Peterlongo Armando Winemaker Signature Teroldego 2017, com 18 meses de barrica. Já havíamos degustados, em outras ocasiões, Teroldegos gaúchos, e ao contrário da Ancellotta que pode variar muito de uma vinícola para outra, a Teroldego parece ter mais consistência e futuro no Vale dos Vinhedos. Curtimos bastante esse vinho.

Depois foi a vez de uma sessão dupla de Dall’Agnol (Estrelas do Brasil), o Superiore 2005, corte de Cabernet Sauvignon, Merlot, Cabernet Franc e Tannat, excelente, e o DMD 2005, feito de Cabernet Sauvignon. Este último merece um “capítulo à parte” dentro de nossa matéria. DMD significa Dupla Maturação Direcionada, e consiste em provocar uma segunda maturação da uva através do corte de parte dos ramos que sustentam os cachos, provocando forte passificação natural das bagas ainda no vinhedo, e conseqüentemente a concentração de todos os constituintes do mosto da uva. O enólogo Irineo Dall’Agnol nos recomendou verter o vinho num decanter e deixá-lo respirando por 10 horas! Claro que degustamos o vinho assim que abrimos a garrafa, e bebemos o resto 10 horas depois, e a evolução foi incrível, incluindo mudanças até mesmo em sua cor! Estávamos céticos de que o vinho sobreviveria todo esse tempo, mas o que encontramos na taça 10 horas depois foi uma espécie de Amarone brasileiro, estruturado e complexo. Ao lado do DNA 99 da Pizzato, foi o melhor tinto gaúcho que já tivemos o prazer de beber.

Já embriados após tantos vinhos, ainda tivemos fôlego para abrir as duas garrafas que compramos na Alma Única, o Cabernet Franc Super Premium 2018, com 15 meses de barrica francesa, e o Syrah Reserva 2017, com 20 meses de barrica americana e francesa. Ambos os vinhos bons e corretos, com equilíbrio entre as características de fruta e madeira. E assim se encerrou nossa estadia de três dias nesse maravilhoso parque de diversões etílico que é o Vale dos Vinhedos! Até a próxima!

One thought on “Cervejas e Vinhos visita o Vale dos Vinhedos, parte 3 de 3”

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *