Saiba mais sobre a região vinícola da Bairrada, em Portugal

Bairrada é uma região vinícola portuguesa situada na província da Beira Litoral e região do Centro (Região das Beiras), entre o Dão e o Atlântico. Há uma frase famosa que diz: “Bairrada faz os melhores e os piores vinhos”. O principal motivo disto é a inconstante e ácida casta Baga, que perfaz cerca de 95% das uvas tintas, e 80% de todas as castas da região. O clima atlântico com fortes ventos e chuva no inverno, e o verão quente e seco, não colaboram. Muitas vezes a uva Baga começa a apodrecer na cepa antes mesmo de estar completamente madura. Devido as dificuldades extremas, a Bairrada tanto pode produzir tintos poderosos de longa guarda, como vinhos magros, pobres e de estilo vegetal. Obviamente bons produtores podem fazer toda a diferença.

A Bairrada já produz vinhos há séculos, mas sofreu um imenso revés quando Marquês de Pombal, primeiro-ministro durante o reinado de José I (1750-1777), ordenou que as vinhas fossem arrancadas e substituídas por outras culturas. Seu intuito era proteger a qualidade e autenticidade do vinho do Porto. Posteriormente as cepas foram replantadas, mas tal ação gerou ressentimentos que duram até os dias de hoje. Autoridades e poder político não costumam ser bem vistos pelos produtores da Bairrada, o que acaba sendo compreensível.

A primeira tentativa para demarcar a Bairrada surge em 1866, quando um mapa definindo a região de acordo com a qualidade e o caráter dos seus vinhos foi desenvolvido por António Augusto de Aguiar. Mas foi apenas em 1975 que as demarcações foram fixadas, com as mesmas entrando para um livro de regulamentos em 1979. Após Portugal aderir a União Europeia em 1991, a Bairrada esteve entre as da primeira vaga de regiões a serem elevadas ao estatuto de DOC (Denominação de Origem Controlada).

A palavra portuguesa popular para argila é barro, o que pode ser a origem do nome Bairrada. No entanto há quem sugira que o nome deriva simplesmente da palavra bairro. Fato concreto é que os solos da região são argilosos. Calcários jurássicos e triásicos deram origem aos ricos solos de argila calcária, que produzem vinhos tintos com maior estrutura e longevidade. Já os solos mais arenosos tendem a gerar vinhos mais leves, porém mais aromáticos.

Como já foi dito, a principal casta é a tinta Baga (foto acima), palavra que significa “fruto silvestre” em português. Outras uvas tintas plantadas são: Camarate (conhecida localmente ainda como Castelão Nacional), Jaen, Touriga Nacional, Alvarelhão, e até mesmo castas francesas como Cabernet Sauvignon e Merlot (como estas não são reconhecidas oficialmente pela Comissão Regional, seus vinhos surgem com a designação ‘Vinho Regional das Beiras’). Entre as brancas, as principais são: Maria Gomes (também conhecida como Fernão Pires), Bical, Cerceal, Arinto, Rabo de Ovelha e Sercialinho. Bical é a uva mais elogiada, capaz de originar vinhos de guarda. Boa parte das brancas é direcionada para a produção de espumantes, que estão entre os melhores de Portugal.

Luis Pato, o Mr. Baga

Os produtores tradicionalistas da Bairrada ainda esmagam as uvas com os pés e fermentam as uvas, ramos e todo o resto em lagares de pedra sem recursos ao controle de temperatura. Os vinhos, escuros e tânicos, costumam amadurecer em madeira velha até cerca de 2 anos. Já as cooperativas e fabricantes que operam numa escala maior, tendem a desramar toda a colheita antes de a fermentar sobre as cascas em cubas de aço inoxidável de temperatura controlada, sendo os melhores vinhos envelhecidos em carvalho francês. Adendo importante: é com a uva Baga que são produzidos milhões de litros de Mateus Rosé, o vinho mais vendido e consumido do planeta!

Principais produtores da Bairrada: Quinta da Aguieira, Caves Aliança, Quinta das Bágeiras, Quinta de Baixo, Quinta do Carvalinho, Caves Messias, Luís Pato (e sua filha Filipa Pato), Caves Primavera, Casa de Saima, Caves São João, Sidónio de Sousa e Caves Valedarcos.

Bibliografia:
– Os Vinhos e Vinhas de Portugal, de Richard Mayson – Editora Publicações Europa-América
– Enciclopédia do Vinho – Vinhos, Vinhedos e Vinícolas, de Hugh Johnson – Editora SENAC

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