Conheça os vinhos de Montilla-Moriles feitos com a uva Pedro Ximénez

Jerez, na Espanha, é uma das regiões mais prestigiadas do país e uma das mais conhecidas no mundo dos vinhos. Mas pouca atenção é dada para uma região vizinha chamada Montilla-Moriles. Ambas fazem parte da Andaluzia, comunidade autônoma localizada na parte meridional do país, que ainda abriga outras duas denominações de origem, Málaga e Condado de Huelva. Em comum, as quatro regiões pertencentes a Andaluzia tem a especialidade na produção de vinhos generosos, produzidos a partir de castas brancas (Palomino, Pedro Ximénez, Moscatel e Zalema).

A fama e o sucesso de Jerez deve muito as outras regiões da Andaluzia, especialmente Montilla-Moriles. A maioria dos vinhos de Pedro Ximénez da Andaluzia vêm, originalmente, de Montilla-Moriles.

Tudo começa no século XVIII quando don Diego de Alvear y Escalera chega a Montilla para fundar uma das mais importantes vinícolas de Andaluzia, a Alvear. Até hoje trata-se da principal expoente da D.O., tornando-se protagonista dos avanços tecnológicos e de um alto padrão de qualidade em toda a região.

Durante o século XX, a indústria do vinho de Montilla-Moriles deixou de ser restrita apenas às empresas particulares, ganhando força dos movimentos agrícolas que empreenderam dinâmicas cooperativas.

Montilla-Moriles é dividida entre os vinhedos das regiões mais baixas e os das regiões mais altas (classificação Alto y Bajo), sendo que Montilla y Moriles Alto é considerada a de melhor qualidade. Seus vinhedos assentam-se sobre solos calcários – albarizas -, assim como em Jerez.

A região possui um clima semicontinental mediterrâneo, de verões quentes e secos (mais severos do que em Jerez), e invernos curtos. Sua principal casta é a Pedro Ximénez (PX) (foto), representando 75% dos vinhedos. Outras uvas cultivadas incluem Airén, Baladí (Bastardo Blanco ou Jaén Blanco), Moscatel (Moscatel de Grano Menudo e Moscatel de Alejandría), Verdejo, Torrontés, Chardonnay, Sauvignon Blanc e Macabeo.

Os vinhos típicos de Montilla-Moriles são os generosos elaborados através de dois sistemas de criação: o biológico ou sob véu de flor, em criadeiras e soleras, e o envelhecimento oxidativo. Ao sol escaldante do verão, as uvas Pedro Ximénez adquirem um amadurecimento carregado de açúcar, resultando em vinhos com elevado teor de álcool natural. Esse elevado teor faz com que os vinhos de Montilla não precisem ser fortificados com aguardente de uva como ocorre em Jerez. Os vinhos doces de Pedro Ximénez, elaborados a partir de uvas-passas ensolaradas, podem ir dos tons mogno a marrons muito escuros em sua cor; exibir passas, tâmaras e torrefatos em seu aroma, e ter um sabor complexo e saboroso.

Os vinhos são geralmente fermentados em tinajas altas de argila (foto), como ânforas gigantes, e desenvolvem rapidamente a mesma levedura que o Jerez. Antigamente usava-se as mesmas classificações (fino / amontillado, oloroso e palo cortado), mas os exportadores de Jerez entraram com uma reivindicação legal na Grã-Betanha (o maior mercado de exportação para Montilla) para usar os termos clássicos. Hoje o rótulo deve usar “seco”, “médio” ou “creme”.

Montilla-Moriles inclui todos os vinhedos dos municípios de Montilla, Moriles, Montalbán, Puente Genil, Montruque, Nueva Carteya, Doña Mencía e parte dos de Montemayor, Fernán Núñez, La Rambla, Santaella, Aguilar de la Frontera, Lucena, Cabra e Baena.

Existem quase 60 bodegas e cooperativas em Montilla-Moriles, que produzem não apenas vinhos, mas também destilados, vinagres e outros produtos. Destas, as mais famosas são a já citada Alvear, Toro Albalá, Cruz Conde, Pérez Barquero (também proprietária da Gracia Hermanos) e Navisa (que possui os rótulos Cobos, Montulia, Montebello e Velasco Chacon).

Encontrar vinhos de Montilla-Moriles no Brasil é uma tarefa árdua. Conseguimos obter apenas duas garrafas até hoje, ambas excelentes: um Fino da Alvear (foto abaixo) na loja Península Vinhos (que também vende um PX Solera 1830 clássico e caro), e um PX 20 Años Solera Fundación 1902 da Cruz Conde, obtida na Vinum Day e já comentada aqui no Cervejas e Vinhos (artigo sobre degustação de vinhos exóticos, parte 1).

Atenção para a harmonização: Presunto Jamon Ibérico e azeitonas. Detalhe que a azeitona mais apropriada para os Finos de Montilla-Moriles são as pretas. O vinho apresentou aroma forte de amêndoas, e na boca apresentou-se seco, amargo, com um leve toque salino. Final longo e persistente. Uma bebida complexa e de alto nível.

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